terça-feira, 27 de novembro de 2018

CONTEXTO NACIONAL DA CRIAÇÃO DO BURGO AGRÍCOLA DO ITACAIÚNAS, FUTURA CIDADE DE MARABÁ

VOYAGE AU TOCANTINS ~ ARAGUAYA. HENRI CONDREAU p. 65
Vamos descobrir sobre uma revolta que aconteceu em Marabá, mas, por enquanto vamos tentar desenhar um quadro de sua época, bem no começo aqui era tudo floresta, mata fechada, quando chegaram os pioneiros que chegaram ao Burgo Agrícola do Itacaiúnas e, seu crescimento e a descoberta e a exploração de riquezas como o caucho e a castanha, trouxeram para cá inúmeros aventureiros e desbravadores, ávidos por conseguirem uma vida melhor nestes rincões. Entramos pela porta da história num cenário rural onde predominavam as riquezas livres, cujas terras ainda não tinham proprietários, muito menos os produtos de origem vegetal e animal. 

Crescia uma atividade extrativista no meio da floresta, nas proximidades dos rios Tocantins e Itacaiúnas, o capital se introduzia de modo grosseiro nesta região primitiva onde havia os castanhais do povo no qual se podia fazer as coletas em terras de domínio público, onde ainda não havia agricultura e muito menos a pecuária, era uma criança que já conseguia dar seus primeiros passos. Passada a época do esplendor da borracha que afetou durante pouco tempo a região, a economia de Marabá se apoiou fortemente no extrativismo da castanha, que no começo a extração era livre e as terras não eram propriedades particulares, coisa que começou a acontecer por volta de 1920, de diversas formas. Nesta altura a castanha alcançou preços elevados no mercado internacional (Estados Unidos e Inglaterra), que veio viabilizar o controle da terra. 

O desenvolvimento histórico de Marabá tem como ponto de partida a formação do primeiro núcleo populacional de que se tem notícias, fora das aldeias indígenas: a Colônia Agrícola do Itacaiúnas surgida por meio da chegada semi-oficial de Carlos Gomes Leitão em 1895. Vamos entrar um pouco no período histórico entre 1895 a 1913, uma vez que no fim desta época já se tem estabilizado um tipo determinado de relação dos homens com a natureza, de relação dos homens entre si, de organização da produção com o tipo de mercadora que se produz, o destino e a apropriação do que é produzido e toda uma teia de relações que identifica uma forma particular de dominação política. 

A economia brasileira dessa época fortemente determinada pela produção de matérias-primas e gêneros tropicais destinados à exportação, principalmente o café do centro-sul, o látex da Amazônia, o cacau e o açúcar do Nordeste, atravessava, quando da criação do Burgo de Itacaiúnas, o período de apogeu da produção da borracha que tinha alcançado preços extremos no mercado internacional.

Carlos Gomes Leitão chega ao Itacaiúnas em 1894. Chefe político derrotado no seu feudo, Boa Vista do Tocantins, atual Tocantinópolis que era do Estado do Goiás, o coronel Leitão vem acompanhado por um grupo de partidários composto de vaqueiros, lavradores e comerciantes. Apesar de seu grupo ser o primeiro a aí se fixar, não encontrou uma terra virgem ainda não palmilhada pelo colonizador. Essa área habitada por índios Gaviões, já havia sido visitada por religiosos, comerciantes, garimpeiros, bandeirantes e exploradores profissionais. 

Apesar dessas várias incursões, a região próxima a Marabá não tinha sido economicamente explorada pelos colonizadores e seus descendentes. A subida do rio Tocantins a partir de Belém era dificultada, naquela parte, pelos sucessivos trechos encachoeirados. Ao longo desse rio, até a criação do Burgo, haviam sido criados alguns núcleos populacionais, dos quais os mais importantes era Cametá (fundado em 1635), Baião (1694), Mocajuba (1853) e Alcobaça (atual Tucuruí). Esse último, segundo Júlio Paternostro,


  • "originou-se de um posto militar instituído em 1792 pelo governador do Pará, Teles de Menezes. A finalidade era domesticar os índios, aprisionar escravos fugitivos, contrabandistas de ouro que desciam das minas goianas e matogrosseses, pela via natural de comunicação entre o Centro e o Norte - rio Tocantins". (Paternostro, 1945, p. 87).

Além desses núcleos e já na confluência com o rio Araguaia aparecia São João do Araguaia, uma antiga colônia militar fundada em 1850 pelo governo provincial do Pará com a finalidade de impedir os extravios de ouro e a fuga dos escravos de Cametá para Goiás, bem como assegurar a tranquilidade de seu trânsito agressor no meio das terras dos índios Timbiras, Carajás e Apinajés. 

A instalação do Burgo do Itacaiúnas coincide com um momento em que o Brasil passa por grandes mudanças no que se refere a organização do trabalho, após um período de desagregação progressiva do sistema escravista, proclama-se sua abolição oficial em 1888. Com a República (1889) o país passa, ao nível político-administrativo, de uma estrutura imperial centralizadora, para uma estrutura federativa n qual as antigas províncias elevadas à condição de Estados-membros ganham ampla autonomia em virtude da primeira Constituição Republicana de 24/02/1891. Esta Constituição permite aos Estados-membros contrair empréstimos externos, organizar forças militares e principalmente, no que concerne ao nosso estudo, dispor das terras devolutas de seu território, criando o seu próprio serviço de terras e colonização. 

Os anos que se seguiram imediatamente à Proclamação da República foram profundamente marcados pelas rivalidades entre partidários do Marechal Deodoro da Fonseca e do Marechal Floriano Peixoto. O Estado do Pará não podia ficar alheio a dinâmica nacional. Seu primeiro governador constitucional, Lauro Sodré, se opõe a Deodoro da Fonseca no episódio da dissolução do Congresso em 1891. Superada a crise e já no governo de Floriano Peixoto, Lauro Sodré é mantido no governo do Estado do Pará, num momento em que se dá a substituição de todos os governadores de Estados (Quintiliano, 1963).

VOYAGE AU TOCANTINS ~ ARAGUAYA. HENRI CONDREAU p. 67
A criação do Burgo do Itacaiúnas está diretamente relacionada com essas lutas partidárias nacionais e com os conflitos locais de caráter político e religioso ocorridos entre essas facções partidárias em Boa Vista do Tocantins, em 1892. Esses conflitos locais envolviam não apenas problemas derivados de fanatismo religioso, mas especialmente disputa de poder entre os coronéis Francisco Maciel Perna (chefe político e intendente local) e Carlos Gomes Leitão (deputado Estadual Florianista e chefe emergente em luta para exercer o controle local). Os dois políticos se colocavam em posições opostas diante dos principais grupos rivais do Estado de Goiás, chefiados respectivamente por Leopoldo Bulhões (facção a qual Leitão pertencia) e pelo Cônego Xavier. Como se observa, nos conflitos a nível local, as partes em desacordo procuram ajustar-se às lutas nacionais filiando-se às correntes opostas sem que isso signifique necessariamente identificação ideológica. Talves esse tenha sido o caso do "florianismo" de Carlos Gomes Leitão.

Com o desfecho do conflito de Boa Vista ou Guerra da Boa Vista, como ficou conhecida, francamente desfavorável para os seus interesses, os florianistas abandonaram Boa Vista em grupos que avançaram para o Leste e para o Norte. Para o Norte seguiu um contingente de criadores e de comerciantes liderados pelo Coronel Carlos Gomes Leitão que desceram o Tocantins em direção ao Itacaiúnas onde estabeleceram uma colônia agrícola, o Burgo do Itacaiúnas.

O que foi o Burgo enquanto primeiro núcleo de onde teria derivado Marabá, pode ser inferido do Relatório de Ignácio de Moura, incumbido que foi por Lauro Sodré de fazer uma inspeção a essa colônia em 1896. Esse relatório tem uma riqueza de detalhes no sentido de auxiliar na reconstituição dos grupos que naquela altura se estruturavam na área. Ao longo da viagem entre Belém e São João do Araguaia, Moura vai mencionando em cada localidade onde passa, as chefias locais, as condições de vida e as atividades econômicas da população. Reporta-se aos coletores de castanha, aos banqueiros do Tocantins, aos índios, ao comerciantes da borracha, aos vaqueiros, as desbravadores dos campos... aos coronéis de Mocajuba, Baião, Alcobaça e Arumatheua. Quem eram os moradores do Burgo? Eram vaqueiros, agricultores, comerciantes e antigos proprietários de terras de Goiás e do Maranhão que segundo o viajante, "vieram para ali espontaneamente só lamentando os inconvenientes da pobreza que é extrema a eles por terem sido espoliados de seus bens com a Guerra Civil de Boa Vista.

No início do estabelecimento do Burgo tinha surgido problemas relacionados com a insalubridade do lugar, o que levou a um deslocamento do povoado para ponto mais propício ao desenvolvimento da colônia. Nesse momento aconteceu uma certa dispersão dos colonos que se espalharam beira-rio ou para povoados vizinhos,


  • "... era lugar de uma topografia bem escolhida, edificaram-se ali algumas barracas, fez-se até uma limitada plantação, porém, febres intermitentes assolaram de tal forma os imigrantes, que lhes ocasionaram verdadeira debandada, retirando-se uns para a Colônia Militar de São João do Araguaia, outros para diversos pontos do rio, ficando, porém, a maior parte fiel aos compromissos tomados com o concessionário, que com eles se retirou para formar um novo estabelecimento, em agosto de 1895 a 18 quilômetros do rio abaixo, na mesma margem esquerda, lugar em que então se achava o Burgo". 


Nossa inserção de dados históricos tomou por base a obra "A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais, de Marília Emmi (1987) p. 03-23. 


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